As origens do PEASA
Do Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para o Nordeste - PDCT/NE ao Programa de Estudos e Ações para o Semiárido - PEASA (1982–2000)
A história do Programa de Estudos e Ações para o Semiárido (PEASA) não começa em sua criação formal. Suas raízes encontram-se no início da década de 1980, quando o Governo Federal decidiu estruturar um amplo programa de pesquisa científica e desenvolvimento tecnológico voltado para o Nordeste brasileiro. Naquele período, o Nordeste vivia uma das mais profundas crises provocadas pela seca, evidenciando que as políticas tradicionais de combate aos efeitos climáticos já não eram suficientes para promover o desenvolvimento regional.
Tornava-se necessário produzir conhecimento científico capaz de gerar tecnologias adaptadas às condições ecológicas, sociais e econômicas do Semiárido. Foi nesse contexto que nasceu o Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico para o Nordeste (PDCT/NE), resultado de um acordo entre o Governo Brasileiro, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O programa sucedeu o antigo Projeto CASI (Programa de Conservação de Água e Sistemas de Irrigação no Semiárido) e ampliou significativamente sua abrangência, passando a financiar pesquisas, formação de recursos humanos, desenvolvimento tecnológico e ações de transferência de tecnologia para toda a região nordestina.
O PDCT/NE foi estruturado em dois grandes eixos de atuação:
● Subprograma de Pesquisa , destinado à produção de conhecimento científico;
● Subprograma de Geração e Adaptação de Tecnologias (GAT) , responsável pelo desenvolvimento, validação e difusão de tecnologias apropriadas às condições do Semiárido.
O programa foi coordenado nacionalmente pelo CNPq e executado por apenas cinco universidades nordestinas:
● Universidade Federal da Paraíba (UFPB);
● Universidade Federal do Ceará (UFC);
● Universidade Federal do Piauí (UFPI);
● Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE);
● Escola Superior de Agricultura de Mossoró (ESAM).
Além das universidades, participaram instituições como EMBRAPA, IPA, EMEPA, DNOCS, CODEVASF e SUDENE, formando uma das maiores redes cooperativas de pesquisa aplicada já constituídas para o Semiárido brasileiro.
A liderança da UFPB
Na Paraíba, a Universidade Federal da Paraíba assumiu papel estratégico ao sediar a Subunidade de Execução do Programa (SUEP), responsável pelo gerenciamento das ações estaduais do PDCT/NE. Naquela época ainda não existia a Universidade Federal de Campina Grande (UFCG). Todo o trabalho era desenvolvido pela Universidade Federal da Paraíba – Campus II, em Campina Grande, que concentrava boa parte da produção científi ca voltada às ciências agrárias, aos recursos naturais, à economia rural e às tecnologias apropriadas para a agricultura familiar.
A atuação da SUEP permitiu integrar pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, promovendo estudos multidisciplinares sobre:
● agricultura familiar;
● manejo sustentável dos recursos naturais;
● conservação da água;
● irrigação de pequena escala;
● caprinocultura;
● sistemas produtivos adaptados ao Semiárido;
● tecnologias sociais para pequenos produtores;
● desenvolvimento regional;
● economia e sociologia rural.
Esse ambiente científico consolidou um importante acervo de pesquisas, dissertações e teses que influenciou diretamente a formação de mestres, doutores e extensionistas dedicados ao Semiárido nordestino.
O Subprograma GAT
Entre todas as iniciativas do PDCT/NE, o Subprograma de Geração e Adaptação de Tecnologias (GAT) talvez tenha sido aquele que mais influenciou o futuro PEASA. Seu objetivo era bastante inovador para a época: desenvolver tecnologias simples, economicamente viáveis e compatíveis com a realidade dos pequenos produtores rurais. Ao invés de importar modelos agrícolas concebidos para outras regiões do país, buscava-se adaptar soluções às condições específicas do Semiárido. As experiências envolveram sistemas de pequena irrigação, manejo de recursos hídricos, alternativas energéticas, captação de água, diversificação agrícola, manejo de solos e tecnologias de baixo custo voltadas à agricultura familiar.
Ao todo, o programa implantou dezenas de unidades demonstrativas em propriedades rurais dos cinco estados participantes, testando diferentes sistemas de irrigação, fontes de água e modelos produtivos adaptados às limitações climáticas da região. Mais importante que os resultados imediatos foi a mudança de paradigma promovida pelo programa. O PDCT/NE demonstrou que o desenvolvimento do Semiárido dependeria menos de grandes obras hidráulicas e mais da produção de conhecimento científico, da inovação tecnológica e da participação ativa das comunidades rurais. Essa concepção representou um dos primeiros movimentos institucionais que mais tarde seriam reconhecidos nacionalmente como princípios da convivência com o Semiárido.
O nascimento do PEASA
Implantado no então Campus II da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) , atual Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), o PDCT/NE foi executado entre 1982 e 1991 , promovendo investimentos expressivos em infraestrutura laboratorial, equipamentos científicos, veículos, formação de recursos humanos e desenvolvimento de pesquisas voltadas às potencialidades e aos desafios do Semiárido brasileiro. Ao longo de aproximadamente dez anos, consolidou-se uma expressiva base de conhecimento interdisciplinar envolvendo diversas áreas das engenharias, ciências agrárias, ciências sociais aplicadas e tecnologias apropriadas, formando uma geração de pesquisadores comprometidos com a produção de soluções para o desenvolvimento regional. Com a conclusão do programa em 1991, surgiu uma preocupação compartilhada entre professores, pesquisadores e técnicos da instituição: evitar que todo o patrimônio científico, tecnológico e institucional construído pelo PDCT/NE fosse descontinuado.
Era necessário criar uma estrutura permanente capaz de integrar pesquisa, ensino, extensão universitária e desenvolvimento regional. Diante desse cenário, em 1992 foi constituída uma comissão responsável por apresentar à nova administração superior da Universidade uma proposta de continuidade institucional das ações desenvolvidas pelo PDCT/NE. A proposta foi encaminhada ao recém-empossado Reitor da Universidade Federal da Paraíba, Professor Dr. Neroaldo Pontes de Azevedo, que reconheceu a importância estratégica da iniciativa e autorizou a criação do Programa de Estudos e Ações para o Semiárido (PEASA). Para conduzir essa nova etapa foi designado como primeiro Coordenador Geral o Professor Dr. Hamilton Medeiros de Azevedo, do Departamento de Engenharia Agrícola, sendo o pesquisador Vicente de Paulo Albuquerque Araújo nomeado Coordenador Adjunto do Programa.
Pouco tempo depois, em razão do afastamento do Professor Hamilton Medeiros, o pesquisador Vicente de Paulo Albuquerque Araújo assumiu a Coordenação Geral do PEASA, função que exerceu entre 1994 e 1997 , tendo como Coordenador Adjunto o Professor Dr. Carlos Minor Tomiyoshi. Essa fase inicial foi decisiva para consolidar a identidade institucional do PEASA, ampliando sua atuação para além das atividades tradicionais de pesquisa e extensão e incorporando uma visão inovadora voltada ao empreendedorismo, à transferência de tecnologia, à qualificação profissional e ao desenvolvimento regional.
A consolidação da primeira fase
Entre 1992 e 1997, o PEASA consolidou sua identidade institucional como um programa universitário comprometido com a pesquisa aplicada, a inovação tecnológica e a extensão rural. Nesse período foram estabelecidas diversas parcerias com órgãos governamentais, instituições de pesquisa e organizações da sociedade civil, fortalecendo sua atuação em diferentes territórios do Semiárido. Ao final de 1997 o então Coordenador Geral do PEASA, Vicente de Paulo Albuquerque Araújo, foi nomeado Presidente da Fundação de Apoio à Pesquisa do Estado da Paraíba (FAPESQ-PB), assumindo a missão de estruturar a política estadual de ciência, tecnologia e inovação.
Com sua saída, a Coordenação Geral do PEASA passou a ser exercida pelo Professor Carlos Minor Tomiyoshi, que permaneceu à frente do programa entre 1997 e 2000, assegurando a continuidade das atividades de pesquisa, extensão e desenvolvimento tecnológico iniciadas na fase anterior. Essa transição marcou o encerramento da primeira etapa da história do PEASA, preservando os princípios científicos herdados do PDCT/NE e preparando o programa para uma nova fase de expansão, que seria fortalecida posteriormente com a criação da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), em 2002. Essa fase inicial foi decisiva para consolidar a identidade institucional do PEASA, ampliando sua atuação para além das atividades tradicionais de pesquisa e extensão e incorporando uma visão inovadora voltada ao empreendedorismo, à transferência de tecnologia, à qualificação profissional e ao desenvolvimento regional. Nesse período foram implantadas iniciativas pioneiras que contribuíram para posicionar o PEASA como referência regional em inovação, capacitação profissional e desenvolvimento territorial.
Entre as principais realizações destacam-se três grandes eixos estruturantes:
Formação de Recursos Humanos em Gestão dos Sistemas Agroindustriais: Em parceria com o Programa de Estudos dos Negócios dos Sistemas Agroindustriais (PENSA) da Universidade de São Paulo (USP), foram realizadas três edições do Curso de Especialização em Agribusiness, iniciativa pioneira no Nordeste voltada à formação de profissionais para atuar na gestão das cadeias produtivas agroindustriais. Em três edições do Curso de Especialização em Agribusiness foram treinados aproximadamente 100 profissionais provenientes de universidades, empresas, cooperativas, órgãos públicos e instituições de pesquisa de diversos estados nordestinos, difundindo conceitos modernos de gestão, competitividade, planejamento estratégico e organização dos sistemas agroindustriais. Essa experiência contribuiu significativamente para a formação de uma massa crítica de especialistas em agronegócios em um momento de profundas transformações na economia brasileira.
Transferência de Tecnologias Apropriadas para o Semiárido
Outro marco dessa fase foi a coordenação do Projeto de Transferência de Tecnologias para Agricultura Familiar do Semiárido, vinculado ao Programa Paraibano de Tecnologias Apropriadas (PPTA), desenvolvido em parceria com o SEBRAE, o CNPq e a então Secretaria de Ciência e Tecnologia do Estado da Paraíba. O projeto representou uma experiência inovadora de integração entre universidade e comunidades rurais, promovendo a transferência de tecnologias apropriadas para aproximadamente dez comunidades da agricultura familiar distribuídas pelo Semiárido paraibano. Durante mais de dois anos, entre 1996 e 1998, equipes multidisciplinares compostas por engenheiros civis, agrícolas, agrônomos, engenheiros de alimentos, médicos veterinários, economistas, administradores, sociólogos, designers, comunicadores sociais e cientistas da computação desenvolveram diagnósticos participativos, projetos produtivos e ações de capacitação voltadas ao fortalecimento das atividades econômicas locais.
Mais do que implantar tecnologias, o projeto estabeleceu um novo modelo de atuação extensionista, baseado na construção coletiva de soluções, na valorização dos saberes locais e na adaptação das tecnologias às condições socioeconômicas e ambientais das comunidades atendidas. Em retrospectiva, essa experiência pode ser considerada o primeiro grande laboratório social de transferência de tecnologias do PEASA , antecipando metodologias que décadas mais tarde seriam retomadas e aperfeiçoadas em iniciativas como os Diagnósticos Rurais Participativos, os Quintais Eco produtivos, o Programa PEER-PAS e o Laboratório Vivo Águas de Acauã.
Inovação Tecnológica e Inclusão Digital dos Pesquisadores
Paralelamente às atividades desenvolvidas no PEASA, entre 1993 e 1995, Vicente de Paulo Albuquerque Araújo foi convidado pela Direção do Centro de Ciências e Tecnologia do Campus II da UFPB para atuar como assessor na área de inovação tecnológica. Nesse contexto foi concebido, em parceria com a IBM , a Fundação Parque Tecnológico da Paraíba (PaqTcPB) e o CNPq , o Programa de Apoio à Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico Individual (PAPDTI). O programa teve como principal objetivo democratizar o acesso dos pesquisadores paraibanos às tecnologias de informação então disponíveis nos principais centros de pesquisa do mundo, promovendo a modernização da infraestrutura computacional das instituições de ensino e pesquisa do Estado. Entre seus resultados mais expressivos destaca-se a implantação do primeiro servidor de acesso doméstico à Internet destinado à comunidade científica da Paraíba, permitindo que pesquisadores da UFPB, posteriormente da UEPB e até integrantes do Ministério Público Estadual passassem a acessar redes internacionais de informação científica por meio de conexão telefônica, uma inovação de enorme impacto para a época. Essa iniciativa contribuiu decisivamente para acelerar a informatização das atividades de pesquisa, ampliar o intercâmbio científico internacional e aproximar a universidade das novas tecnologias da informação.
Gestão da Qualidade e Competitividade Organizacional
O êxito da parceria estabelecida com a IBM possibilitou ainda a implantação de duas edições do Curso de Especialização em Qualidade e Produtividade , desenvolvidas em um período marcado pela difusão dos programas de qualidade total e pela implantação das normas internacionais de gestão da qualidade nas organizações brasileiras. O curso formou profissionais de empresas privadas, órgãos públicos e instituições de ensino superior, contribuindo para disseminar metodologias modernas de gestão da qualidade, melhoria contínua, produtividade, inovação organizacional e competitividade empresarial. Assim como ocorreu com o Curso de Especialização em Agribusiness, essa iniciativa reforçou a vocação do PEASA para integrar conhecimento científico, formação profissional e desenvolvimento regional, consolidando uma característica que acompanharia o Programa ao longo de sua história: a permanente articulação entre universidade, setor produtivo e sociedade.
Um Legado para as Décadas Seguintes
A fase compreendida entre 1992 e 2000 estabeleceu os alicerces institucionais que orientariam o desenvolvimento do PEASA nas décadas posteriores. A combinação entre pesquisa aplicada, formação de recursos humanos, inovação tecnológica, empreendedorismo, transferência de tecnologias e atuação extensionista consolidou um modelo de trabalho interdisciplinar e fortemente conectado às demandas da sociedade. Muitas das metodologias e princípios desenvolvidos nesse período seriam posteriormente ampliados e atualizados em iniciativas como os programas de educação empreendedora, os diagnósticos territoriais, as plataformas digitais, os Quintais Eco produtivos, o Museu Interativo do Semiárido, a Expedição do Semiárido, o Diagnóstico Rural Participativo Inteligente e o Laboratório Vivo Águas de Acauã, evidenciando uma trajetória marcada pela continuidade, inovação e compromisso com o desenvolvimento sustentável do Semiárido brasileiro.
VICENTE DE PAULO ALBUQUERQUE ARAÚJO - Engenheiro, Pesquisador e Extensionista
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