Cultivo do cártamo no semiárido é alternativa para produção de biocombustível

 

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Cártamo, planta exótica introduzida no Brasil e adaptada às condições do sertão nordestino

O cultivo do cártamo no semiárido nordestino pode se tornar uma alternativa de sucesso para a produção de biocombustíveis como biodiesel ou bioquerosene. É o que comprova um projeto coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), em parceria com o Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN) e com a Ben-Gurion University, de Israel, e financiado pelo Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC).

A pesquisa conseguiu produzir com o cártamo – planta exótica introduzida no Brasil e adaptada às condições do sertão nordestino – uma quantidade de óleo considerável. Em média, a produtividade é de 6 toneladas/hectare de sementes, o dobro da produção média de soja, que é de 3 toneladas/ha.  Além disso, a quantidade de óleo no interior da semente do cártamo chega a 45%, enquanto na semente da soja é de 18%. Outro fator relevante é que a planta pode ter até quatro ciclos de cultivo por ano no semiárido.

“O cártamo tem despontado como uma oleaginosa potencial para desenvolvimento e crescimento no semiárido nordestino”, afirma a coordenadora do projeto, professora Juliana Espada Lichston, da UFRN.  Segundo ela, o semiárido é impróprio para muitas culturas, mas o plantio do cártamo pode gerar lucros para os agricultores da região e ajudar também na recomposição de áreas em processo de desertificação.

A pesquisa com o cártamo teve início em 2009 e passou por diversas fases, como análises laboratoriais, cultivo isolado em campo e cultivo em consórcio com outra oleaginosa. O trabalho é realizado no campus do IFRN, localizado no município de Apodi (RN), no coração do semiárido nordestino, a cerca de 340 quilômetros de Natal.

O projeto conta com a participação de cerca de 150 agricultores familiares. Eles foram entrevistados para entender as principais necessidades e dificuldades em campo e adaptar o cultivo à realidade da região. “O agricultor familiar é o foco do nosso trabalho. A região é muito carente e as pesquisas científicas precisam sair das universidades para mudarem essa realidade. Queremos ver um sertão nordestino verde e produtivo, com agricultores vivendo de forma digna”, destaca Juliana Lichston.

A parceria com a Ben-Gurion University, de Israel, começou há três anos. Os pesquisadores conseguiram aprimorar o desenvolvimento do cártamo no deserto israelense, técnicas que foram utilizadas no cultivo da planta no semiárido nordestino. O resultado foi uma produtividade maior em campo, com menor custo, menos utilização de água e nenhum defensivo agrícola.

Fonte alternativa

“A pesquisa aponta uma alternativa de matéria-prima para a produção do biodiesel, que está crescendo na matriz de combustíveis brasileira”, ressalta o coordenador de Inovação em Tecnologias Setoriais do MCTIC, Rafael Menezes. Atualmente, o óleo diesel fóssil do Brasil, usado como combustível para vários tipos de veículos, conta com uma adição de 11% de biodiesel. E esse índice vai continuar subindo um ponto percentual até 2023.

De acordo com Rafael Menezes, os produtores querem encontrar fontes de matérias-primas mais baratas para o biodiesel. A maior parte da produção no Brasil hoje, cerca de 80%, é derivada da soja. Outros 15% têm como fonte o sebo bovino e 5% deriva de oleaginosas como girassol e óleo de algodão. “Nosso papel na pesquisa, desenvolvimento e inovação é encontrar fontes de matéria-prima que sejam adaptadas às condições de clima e solo do Nordeste e, principalmente, do semiárido”, afirma o coordenador de Inovação em Tecnologias Setoriais do MCTIC.

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Cultivo do cártamo no campus do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), no município de Apodi

Cultivo do cártamo no campus do Instituto Federal do Rio Grande do Norte (IFRN), no município de Apodi

Nova fase

A pesquisa com o cártamo no semiárido terá continuidade e vai se estender até 2022. Pela primeira vez, a pesquisa vai realizar o cultivo do cártamo em consórcio com a jojoba, outra oleaginosa. Além disso, incluirá experimentos em campo com seis variedades diferentes do cártamo para definir qual delas será a melhor indicação para os agricultores.

Nesta nova fase, em colaboração com equipe de Israel, o projeto também vai testar fatores como germinação e resistência da planta à falta de água, excesso de calor e salinidade.  “Vamos avaliar a resistência do cártamo ao nível máximo de estresse no campo e ver até onde podemos chegar para que ele seja produtivo”, explica a coordenadora do projeto, Juliana Lichston.

O trabalho conta com a colaboração de um grupo de professores das três instituições envolvidas, UFRN, IFRN e Ben-Gurion University, além da participação de 65 alunos de graduação e de pós-graduação. Os estudantes participam de todo o processo, das análises laboratoriais ao cultivo e coleta em campo. “Queremos formar jovens cientistas que tenham dentro de si uma semente transformadora da realidade social do nosso país”, ressalta a coordenadora do projeto.

Parceria com Israel

O projeto de cultivo do cártamo é mais um exemplo da colaboração entre Brasil e Israel na busca de soluções para o semiárido nordestino. “Essa cooperação com Israel é muito importante porque o país detém muita tecnologia de gestão de recursos hídricos e da convivência com o ambiente árido. Hoje em dia, a ideia não é brigar com o semiárido, mas sim se adaptar às condições da região”, reforça o coordenador-geral de Estratégias e Negócios do MCTIC, Eduardo Soriano.

Para Soriano, incentivar atividades econômicas no semiárido sempre foi um desafio. Segundo ele, a parceria com a Ben-Gurion University é fundamental porque o centro desenvolve tecnologias para o cultivo de plantas em ambientes salino ou com pouquíssima água, como no semiárido. “Agora, a ideia é disseminar o cultivo do cártamo no semiárido brasileiro.”

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Professora Juliana Espada Lichston (ao centro), coordenadora do projeto, com alunos participantes da pesquisa

Professora Juliana Espada Lichston (ao centro), coordenadora do projeto, com alunos participantes da pesquisa

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